Professor universitário e especialista em línguas e tradução foi o convidado de honra das comemorações, que ficaram marcadas por uma conversa sobre a origem do nome Monte de Bois, as dúvidas dos portugueses e a forma como as novas gerações usam a língua.
A Associação Desportiva e Recreativa de Monte de Bois assinalou, no passado domingo, o seu 54.º aniversário, numa celebração que reuniu a comunidade e que teve como convidado de honra Marco Neves, professor universitário na NOVA, investigador e especialista em línguas e tradução.
Natural de Peniche, Marco Neves é também conhecido pela participação no programa “Esta Língua Que Nos Une”, da RTP, e aproveitou a ocasião para conversar sobre uma das grandes marcas da identidade portuguesa: a língua.
Entre os temas abordados esteve uma questão particularmente ligada à própria localidade: qual será a origem do nome Monte de Bois?
Segundo Marco Neves, existem várias hipóteses, mas a investigação aponta sobretudo para uma ligação ao mundo animal.
“Há a hipótese de ter a ver com ‘bois’, com o animal, ou ter a ver com ‘boi’, a palavra francesa, até porque sabemos que há aqui uma ligação forte à França, na zona de Alcobaça.”
No entanto, o investigador considera mais provável a primeira hipótese.
“Tudo aquilo que eu consegui investigar aponta mais para o animal. Este nome é usado em várias terras em Portugal e na Galiza e, por isso, tudo leva a crer que tem mesmo que ver com os animais e não com a ligação francesa.”
A conversa passou também pelas dúvidas que surgem diariamente quando falamos ou escrevemos em português. Para Marco Neves, existe uma insegurança significativa dos portugueses em relação à própria língua, embora considere que ter dúvidas seja natural e até positivo.
“Eu acho que as pessoas têm muita insegurança e, por isso, fazem muitas perguntas. Isso faz parte. Talvez o problema maior seja terem pouca confiança na sua própria utilização da língua.”
O professor defende que errar faz parte do processo de aprendizagem e que a melhor forma de melhorar é continuar a comunicar.
“Todos nós vamos errar. Temos que tentar melhorar, mas o melhor é tentar: falar, conversar, andar para a frente e depois ir tentando melhorar ao longo do tempo.”
“Os jovens sempre falaram mal” — ou será apenas uma preocupação antiga?
E quando a discussão chega à forma como as novas gerações utilizam a língua portuguesa, surge uma preocupação recorrente: estarão os jovens a falar e a escrever pior?
Marco Neves considera que esta preocupação não é nova. Pelo contrário, acompanha a história das línguas há milhares de anos.
“Os mais velhos, a partir dos 30 anos, desde sempre, e há registos disto desde há cinco mil anos, estão sempre preocupados com a maneira como os jovens utilizam a língua.”
Apesar das mudanças constantes, o investigador não considera que o português esteja atualmente em decadência ou a atravessar uma crise particularmente grave.
“Eu não acho que o português esteja em decadência ou que esteja numa maior dificuldade do que estava há 100 anos.”
Para Marco Neves, a preocupação com a forma como as diferentes gerações falam e escrevem pode, aliás, ter um efeito positivo, ao incentivar a atenção e o cuidado com a língua.
“Essa preocupação não deixa de ser algo útil porque, ao estarmos preocupados com a maneira como os jovens e as outras gerações usam a língua, no fundo continuamos a preservá-la.”
As comemorações do 54.º aniversário da Associação Desportiva e Recreativa de Monte de Bois ficaram, assim, marcadas não apenas pela celebração da história da coletividade, mas também por uma conversa sobre as palavras que usamos, as dúvidas que temos e a forma como a língua portuguesa se transforma de geração em geração.







